[Talk-br] Excesso de living street em Porto Alegre

Augusto Stoffel arstoffel em yahoo.com.br
Segunda Janeiro 6 22:24:08 UTC 2014


O atual sistema de classificação de vias permite o uso da tag
"highway=living_street" em dois casos: primeiro, através de um
critério objetivo baseado na largura da via, e, segundo, através de um
critério subjetivo, a saber, a presença de pedestres na rua.  Eu estou
de pleno acordo com o primeiro critério, cujo efeito prático é a
rotulação de becos em aglomerações espontâneas como living street.

Porém, eu não estou muito satisfeito com o segundo critério.  O
principal efeito prático desse segundo critério é a possibilidade de
marcar como living street qualquer via que contorne ou atravesse um
aglomerado subnormal, ou qualquer outra região da cidade que o
mapeador julgue perigosa, desaconselhável, ou desagradável.  Não vou
tentar escrever uma dissertação coerente sobre o tema, mas vou
mencionar rapidamente alguns pontos que me desagradam.

* Imparcialidade/transparência: Quem somos nós (mapeadores do OSM)
  para decidir quais ruas são perigosas, desaconselháveis ou
  (in)dignas dos nossos usuários?  Nós temos muito menos potencial de
  fazer isso "bem feito" que as companhias big data, e por outro lado
  o OSM pode vir a ser, em breve, a única ferramenta a mostrar nossas
  cidades de forma imparcial e transparente -- em [1] há um artigo
  muito interessante sobre isso.  Assim eu acho que nós devemos
  excluir dos nossos mapas qualquer tentativa de indicar se uma área é
  gueto ou não, com as vantagens e desvantagens que isso possui.

* Roteamento: Uma das razões para marcar certas vias como
  contraindicadas seria melhorar o roteamento.  Eu não gosto dos
  resultados, na prática.  Por exemplo, o trajeto que eu costumava
  fazer do Campus do Vale da UFRGS até o (defunto) Estádio Olímpico
  incluía tomar a Barão do Amazonas, Caldre Fião, Oscar Schneider, etc
  [2].  Esse é provavelmente o caminho ótimo para quem prefere vias
  secundárias; e talvez seja melhor que o caminho canônico (que
  seguiria pela Bento Gonçalves até a Azenha) até mesmo para quem
  prefere vias principais.  No entanto, foi decidido que a Barão do
  Amazonas é uma rua indigna, e o roteador nunca descobrirá esse
  caminho, mesmo operando em um modo que prefere vias secundárias.
  
  Outro exemplo em que eu acho a situação um pouco exagerada é este
  trecho da Avenida Jacuí [3], que muda de secondary para living
  street porque se aproxima de uma vila.  Não vejo razão alguma para o
  roteador evitar esta rua.

* Verificabilidade: exceto pela existência de sinalização alertando
  para pedestres/crianças na via (coisa não muito comum), a única
  forma prática de constatar e verificar a existência de pedestres na
  via parece ser usando o Google Street View.

Em suma, eu preferiria remover o caso "pedestres na via regularmente"
do diagrama de classificação de vias, e usar living street
exclusivamente para vias residenciais que comportam no máximo um
automóvel.

PS: Eu não expressei minha opinião a respeito da polêmica anterior
sobre o excesso de tertiary em Porto Alegre / promoção por preferência
porque na época eu recém tinha começado a pensar no OSM.  Aqui vai um
breve comentário.  Eu concordo com a filosofia da promoção por
preferência; o que eu acho que está dando errado é a classificação de
uma rua mudar em um ponto em que as características físicas da rua
(como largura ou pavimento) não mudam.  Assim, eu diria que, via de
regra, uma rua deve possuir uma única classificação em toda a sua
extensão e deve ser promovida de residential para tertiary se ela tem
preferência sobre a maioria das outras residentials que ela atravessa
(e similarmente para distinguir secondary de tertiary).  Ou seja, um
ganho de preferência isolado não gera promoção, e uma perda de
preferência isolada não gera demoção.  É claro que essa idéia mais
global é mais difícil de traduzir em um algoritmo totalmente livre de
ambiguidade, e provavelmente exigiria um "input" subjetivo, baseado em
conhecimento local.  [Mas nota que isso é diferente do caso da living
street em que estamos arbitrando que tal rua deva ser totalmente
evitado, exceto para acesso local.]

[1]
https://www.aclu.org/blog/racial-justice-criminal-law-reform-technology-and-liberty/your-turn-turn-navigation-application

[2] http://www.openstreetmap.org/#map=16/-30.0637/-51.1959

[3] http://www.openstreetmap.org/#map=17/-30.07853/-51.23620

[4] http://www.openstreetmap.org/#map=17/-30.03503/-51.15997




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